A senha da sabotagem III – A tese que se destrói (ou: Não faltou comunicação e nem faltou marketing).

C.O.P 

Para compreender mais a movimentação petista em curso, tomemos aqui a duas boas entrevistas realizadas pela Rita Soares, do Diário do Pará, as quais têm ganhado notoriedade e estimulado a discussão no Blog da Repórter. A disputa de argumentos gira em torno das entrevistas de Chico Cavalcante, petista de raiz no Pará e dono da agência Vanguarda (leia aqui), e Edson Barbosa, dono da empresa Link, que foi a responsável pela campanha da Governadora Ana Júlia (leia aqui). Cada um dos especialistas discorre sobre um motivo que acredita ter sido relevante para a derrota, ao mesmo tempo em que oferta acusação em relação à outra parte. Quem considera relevante o que dizem esses especialistas poderia resumir a questão em uma pergunta: a derrota de Ana Júlia foi decorrente da estratégia equivocada de marketing ou a teria sido provocada pela falta de estratégia de comunicação do governo nos quatro anos de gestão?

Já afirmei que nem um motivo e nem outro são pontos principais para entender a derrota petista. A disputa entre os marqueteiros passa longe de expor em forma de argumentos a explicação definitiva sobre a derrocada. Alguma coisa pode ser pinçada para servir a análise dos motivos da derrota, mas no geral os argumentos dos marqueteiros ajudam a desconstruir a inteligência de quem lê, porque conduz o raciocínio para outros pontos e esconde o principal – e é isso que denomino também como elemento da estratégia de sabotagem.

Se considerarmos apenas o que foi declarado de forma explicita, concluiremos que a disputa em curso interessa apenas aos lados que se acusam. A única verdade que talvez possa interessar ao cidadão é aquela que ainda não foi confessada abertamente: Eles disputaram o comando da estratégia para dobrar, pela força da propaganda, o entendimento do povo. Agora, um acusa o outro de ter sido ineficiente no uso do expediente.

A técnica de convencimento, pano de fundo na disputa entre os marqueteiros, estava direcionada para a formação da opinião dos cidadãos sem corresponder a realidade. A pretensão dos petistas era fazer a população crer que esse foi um bom governo sem que realmente tivesse sido, mas a técnica não prevaleceu e o povo rejeitou nas urnas a atual governadora. Agora, eles estão em franca disputa porque o povo não se deixou levar pela estratégia, não engoliu o engodo da propaganda.

Se o Governo de Ana Júlia tivesse sido realmente melhor do que o do antecessor teria gerado ativos políticos tão favoráveis que, ao ser somado a toda estrutura milionária de marketing de campanha, o levariam a vencer a disputa plebiscitária. Se o Governo Ana Júlia tivesse sido melhor do que o Governo Jatene e merecesse um julgamento positivo do povo pelas ações empreendidas em quase quatro anos de mandato, teria vencido mesmo que a estratégia de comunicação com o público se reduzisse a anúncios em classificado de jornal. Aqui reside, portanto, a autodestruição da tese que diz que o Governo petista foi o melhor, mas imputa a derrota à falta de comunicação ou à deficiência da estratégia de marketing.

Comunicação é ferramenta para a divulgação das ações estratégicas que foram praticadas e das realizações que existem como ativo de um governo. A comunicação reforça aquilo que o povo está preparado para aceitar como obra referencial de um gestor porque já percebeu a existência e já gozou dos benefícios da transformação levada a efeito para melhor. Assim, o gestor usa a comunicação para capitalizar em seu favor os ativos políticos que decorrem das suas ações reais. Comunicação tem que ser a estratégia de reforço e confirmação de um bom governo e não um instrumento de criação da idéia de um bom governo no imaginário popular, mas sem referência na realidade, sob pena de ser considerada como verdadeira estratégia-instrumento da mentira governamental.

A estratégia de comunicação que um dos marqueteiros tanto se ressente da falta é aquela que tenta criar no imaginário das pessoas uma referência de ação governamental que não existiu. O outro marqueteiro, por sua vez, reclama do marketing político, que se tivesse sido eficiente teria trazido o resultado esperado pelos petistas sem que houvesse lastro na realidade do Estado. Num e noutro caso quem perderia era a verdade, quem perderia era o Povo.

A verdade sobre a derrota é tão simples que chega a causar escândalo. O Governo Ana Júlia foi o pior da história recente do Pará; é o pior dentre todos os governos petistas do Brasil. A derrota do PT, do Governo do PT, não se deve a um erro de estratégia de marketing e nem à insuficiência da política de comunicação das ações. A derrota se deve ao fato de que cada cidadão desse Estado avaliou o governo por aquilo que ele é e concluiu que – por ser ruim, insuficiente ou mediano em diversos aspectos essenciais, tanto faz – o comando do Estado deveria ser entregue a outro partido.